[Foto: Arquivo / Roque de Sá / Agência Senado]
- Reação contundente: Presidente critica recomendação dos EUA de taxar produtos brasileiros em 25% e afirma que o país defenderá sua soberania econômica.
- Cobrança a Trump: Lula aponta que anúncio desrespeita acordo de 30 dias costurado com Donald Trump e aguarda esclarecimentos sobre a medida classificada como “intempestiva”.
- G7 e o Pix na mira: Diante do desmonte institucional externo e da alegação americana de que o Pix ameaça cartões de crédito, governo brasileiro confirma ida à cúpula na França para defender o multilateralismo.
Ao abrir, nesta quarta-feira (03/06), a segunda reunião ministerial de 2026, realizada diante de um cenário em que o Brasil se vê sob ameaça de uma nova taxação por parte dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que o “país não adotará mais a política de vira-lata diante das grandes potências”.
A declaração ocorre após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) apresentar uma recomendação preliminar para sobretaxar em 25% os produtos brasileiros. O governo federal reagiu prontamente com argumentos sólidos em nota oficial divulgada na terça-feira (02/06), manifestando profunda discordância e rebatendo as alegações americanas de forma coordenada através de coletiva do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Defesa da Soberania e o Acordo Quebrado
Durante o pronunciamento, o chefe do Executivo ressaltou a grandiosidade histórica do país frente às pressões externas e criticou a postura de Washington. “Nós estamos num momento decisivo para que a sociedade brasileira, eu diria até uma parte da sociedade mundial, reconheça o fortalecimento da democracia no nosso país, a nossa luta para o fortalecimento do multilateralismo, a nossa luta para que esse país não seja tratado em nenhum momento como se fosse uma republiqueta insignificante. Nós somos muito grandes. Nós temos muita história, e nós não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil esta semana”, enfatizou.
Lula relembrou que o Brasil busca o diálogo constante desde julho de 2025, quando as primeiras tarifas foram impostas. No início de maio, precisamente no dia 7 de maio, Lula reuniu-se pessoalmente com o presidente americano Donald Trump em Washington, ocasião na qual ficou estipulado um prazo de 30 dias para que os ministros de comércio de ambos os lados chegassem a um consenso sobre as taxas remanescentes.
“Na última reunião houve uma divergência entre o meu ministro da Indústria e Comércio, o meu ministro das Relações Exteriores com o ministro do Comércio deles. Eu propus ao Trump, já que não tem acordo entre os dois ministros, de darmos 30 dias para que os dois se entendam. Essa reunião ainda não concluiu nada. Por isso a nossa surpresa com a decisão de mais um comunicado, de mais uma taxação com relação ao Brasil. Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem, com a decisão deles”, declarou o presidente.
A quebra desse prazo estipulado, uma vez que os novos impostos só entrariam efetivamente em vigor a partir de 15 de julho após os trâmites burocráticos internos americanos, fez Lula cobrar publicamente o líder da Casa Branca durante um evento em Catalão, Goiás. Na oportunidade, o mandatário brasileiro sugeriu que a decisão pode ter ocorrido sem a anuência direta de Trump.
“Então, Trump, é o seguinte, cara, você disse que pintou uma química e entrou em você, quem anunciou isso não foi você nem eu. Nós demos 30 dias para os nossos ministros negociarem. Então, eu estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência. Porque esse acordo não pode ter a sua anuência, porque nós dois combinamos 30 dias, até 15 de julho, para poder ter uma resposta do que nós propusemos”, comentou Lula durante a inauguração do hospital da Universidade Federal de Catalão.
O Pix como alvo
Uma das revelações mais surpreendentes dos bastidores da disputa comercial envolve o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. Durante a agenda em Goiás, Lula exibiu uma cartolina escrita manualmente com a frase “O Pix é do Brasil” e confirmou que o Pix está explicitamente entre as razões alegadas pelos EUA para aplicar a sobretaxa.
Segundo o presidente, o sistema público e gratuito compete diretamente com as empresas norte-americanas de cartão de crédito estabelecidas em solo brasileiro, que temem perder espaço de mercado para a ferramenta nacional.
“O Pix assusta eles, o Pix assusta. Eu falei para o Trump, ô cara, ao invés de ter medo do Pix, coloca o Pix para funcionar do lado dos Estados Unidos, faça o Pix para nós, faça o Pix para nós, é muito mais simples. Na verdade, a preocupação dos americanos é que o Pix pode abalar muito as chamadas empresas do cartão de crédito deles, que estão aqui no Brasil, acham que o Pix vai acabar com isso. E o Pix vai mesmo, porque o Pix é de graça e é público e ninguém paga nada, é só clicar no Pix e está resolvido o nosso problema”, apontou.
Disputa técnica aduaneira e mudança de planos para o G7
Oficialmente, a investigação da Seção 301 conduzida pelo USTR foca em conclusões preliminares sobre proibições de importação relacionadas ao trabalho forçado penal, afetando o Brasil, a União Europeia e outras 58 nações. O governo federal considerou um “absurdo” a tentativa de associar a competitividade brasileira a violações humanas. O país lembrou que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece há décadas o Brasil como referência internacional no combate ao trabalho forçado através de rigorosa fiscalização e cooperação.
A nota oficial detalha ainda que as autoridades aduaneiras do Brasil já possuem total competência legal para confiscar ou barrar qualquer bem produzido total ou parcialmente por trabalho forçado, enquadrando-se em vedações ligadas à moral e ordem pública, compromisso este também firmado em tratados de livre comércio com o Mercosul, Chile e a União Europeia.
Em resposta à injustiça, o Brasil ressaltou que se reserva o direito de acionar os mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional. Além disso, o Ministério do Trabalho e Emprego reforçou que permanece à disposição para cooperar com o Departamento de Trabalho dos EUA.
O agravamento da crise diplomática e o cenário de enfraquecimento das regras internacionais forçaram uma mudança na agenda presidencial. Lula revelou que decidiu alterar seus planos e confirmou presença na próxima reunião de líderes do G7, agendada para o dia 15 de junho, na França.
“Eu nem ia ao G7. Agora eu vou. Porque é preciso alguém tentar colocar ordem nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU”, concluiu Lula, reiterando a necessidade urgente de reformular o Conselho de Segurança das Nações Unidas.
| Eixo da Crise | Ações e Argumentos Oficiais | Status / Prazos |
|---|---|---|
| Ameaça Tarifária | O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) emitiu recomendação preliminar para taxar produtos brasileiros em 25% sob a alegação de sanções da Seção 301 ligadas ao trabalho forçado penal. | Recomendação |
| Defesa Brasileira | O governo classificou a associação como um “absurdo”, relembrou que a OIT reconhece o Brasil como referência no combate ao trabalho escravo e ativará a Lei de Reciprocidade aprovada no Congresso. | Discordância |
| O Fator “Pix” | Lula revelou que o Pix está listado nas justificativas americanas por ser público, gratuito e competir com forte vantagem contra as empresas de cartão de crédito dos EUA no Brasil. | Ponto Central |
| Acordo Quebrado | A medida surpreendeu o governo brasileiro porque Lula e Donald Trump haviam acordado, no início de maio, um prazo de 30 dias para os ministros negociarem antes de novos comunicados. | Entrada em vigor prevista para 15/07 |
| Resposta no G7 | Diante da crise, Lula mudou de planos e confirmou ida à cúpula do G7 na França para denunciar o desmonte do multilateralismo e cobrar o fortalecimento e reformulação da ONU. | Reunião na França em 15/06 |
*Com informações de Palácio do Planalto