[Foto: Richard Souza / AN]
- Raio-X de 4 décadas: Pesquisa inédita analisa o solo costeiro do RJ de 1984 a 2024, revelando que a expansão urbana acelerada ameaça a estabilidade natural garantida pela Mata Atlântica.
- Ameaça constante: Regiões como a Costa Verde, que teve crescimento urbano de 254%, e a faixa até São Francisco de Itabapoana apresentam altos índices de erosão e risco de deslizamentos.
- Surpresa ecológica: Estudo descobre que a presença de cabras nas Ilhas de Maricá, ao contrário do esperado, ajudou na conservação e no aumento da vegetação local.
A paisagem costeira do estado do Rio de Janeiro, mundialmente famosa por sua beleza exuberante, esconde cicatrizes estruturais que colocam populações inteiras em risco. É o que revela o inédito Inventário da Degradação do Solo na Zona Costeira do Rio de Janeiro, conduzido pelo departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF). Analisando imagens de satélite e dados de 1984 a 2024, pesquisadores traçaram um panorama detalhado de como a ocupação humana e as forças da natureza moldaram o litoral fluminense nas últimas quatro décadas.
A pesquisa abrangeu uma vasta área de aproximadamente 22 mil quilômetros quadrados, quase metade do estado, cobrindo municípios de Búzios a São Francisco de Itabapoana, Cachoeiras de Macacu, Costa Verde (Itaguaí, Mangaratiba, Angra dos Reis, Paraty) e Maricá.
“O estudo oferece um modelo científico e replicável capaz de identificar as áreas críticas de degradação, quantificar as mudanças no uso e cobertura da terra ao longo de 40 anos e subsidiar o planejamento municipal e o cumprimento do Código Florestal brasileiro”, sintetiza o autor da pesquisa, Mohammad Al Abed. O especialista sírio em sensoriamento remoto atuou como professor visitante na UFF com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
Uma metodologia inédita nos trópicos
O inventário marca um pioneirismo científico: é a primeira vez que a metodologia do Programa de Ações Prioritárias da ONU (UNEP-PAP/RAC) é adaptada para um ambiente costeiro tropical úmido, especificamente no bioma da Mata Atlântica. Historicamente, a técnica era aplicada em regiões semiáridas ou mediterrâneas.
Para chegar aos resultados, a equipe utilizou imagens dos satélites Sentinel-2 e Landsat 5 e 8, cruzadas com dados do MapBiomas e validadas por imagens de alta resolução (drones e Google Earth Pro). “As imagens passaram por um rigoroso pré-processamento para garantir a consistência entre sensores e épocas diferentes”, aponta Abed. A partir daí, o território foi classificado através de um índice de risco ponderado com 14 variáveis ambientais e antrópicas (como relevo, tipo de solo e cobertura vegetal).
“Hotspots” de degradação: Onde o perigo mora
O mapeamento trouxe uma boa notícia acompanhada de um alerta severo: entre 66% e 90% das áreas costeiras apresentam estabilidade, mas essa segurança depende diretamente da floresta em pé.
“Os números são um excelente sinal, porém ainda é uma estabilidade sob vigilância. Temos cerca de 90% de áreas estáveis em lugares como Paraty e Angra dos Reis, o que mostra que a nossa Mata Atlântica está segurando as pontas, mas o estudo faz um alerta de que a estabilidade do solo depende da floresta de pé”, destaca Fábio Ferreira, professor da UFF e mediador da pesquisa.
Os problemas se concentram nos chamados hotspots de degradação. “Os hotspots de degradação ocorrem onde pressões humanas, como a urbanização, desmatamento, incêndios, planejamento inadequado de estradas, se sobrepõem às vulnerabilidades naturais, como as encostas íngremes, chuvas intensas e solos frágeis, por exemplo”, explica Abed.
O retrato do risco por região:
- Búzios a São Francisco de Itabapoana: Devido ao desmatamento para pecuária e café, mais de 25% do território é classificado como instável, dominado por erosão em sulcos. Dos 2.460,85 km² degradados, 1.916 km² são zonas instáveis de alta prioridade.
- Costa Verde (Angra dos Reis, Paraty, etc.): Com um crescimento urbano assustador de 254% em 40 anos, a região sofre com a construção de estradas e expansão do turismo. “A Costa Verde do Rio como um todo perdeu 16,3% de sua restinga e 47,8% de suas áreas úmidas”, exemplifica Abed. O pesquisador também evidencia que “isso coloca em risco as comunidades em cidades como Angra dos Reis, onde mais de 60% do município é suscetível a deslizamentos”.
- Maricá: Apresenta 5,88% de zonas degradadas, fortemente influenciadas por incêndios (responsáveis por 26% da perda de cobertura arbórea entre 2001 e 2023) e conversão em pastagens.
- Cachoeiras de Macacu: O desmatamento nas encostas comprometeu cerca de 8% da área com erosão laminar, especialmente ao longo do Rio São João.
“Para quem mora nas cidades, a degradação aparece de forma clara, embora pareça natural”, indica Ferreira, mencionando as encostas sem vegetação após fortes chuvas. “O impacto é direto na segurança e no bolso: são estradas que cedem, casas que ficam em risco e o aumento de enxurradas de lama que invadem as ruas.”
O surpreendente caso das cabras de Maricá
Em meio aos dados de degradação, uma descoberta inusitada chamou a atenção dos pesquisadores nas Ilhas de Maricá. Cerca de 50 cabras habitam o local, e, contrariando a crença comum de que destruiriam a flora, a presença dos animais enriqueceu o solo.
Os dados mostram que a vegetação densa no local saltou de 8,4 hectares (1940) para 19,8 hectares (2024). Analisando o período mais recente (2016 a 2024), as áreas mais verdes cresceram de 10,7 para 41,1 hectares.
“Isso sugere que as cabras podem desempenhar funções benéficas, como pastejo seletivo, ciclagem de nutrientes e dispersão de sementes. Isso justifica a necessidade de avaliações ecológicas específicas para cada local, ao invés de uma erradicação automática da espécie”, afirma Abed. “O caso das Ilhas de Maricá também demonstra que uma gestão mais cuidadosa e específica para cada local pode contribuir para a manutenção da estabilidade dos ecossistemas.”
Prevenção e soluções direcionadas
O objetivo principal do inventário não é apenas diagnosticar, mas oferecer soluções. “O grande problema que buscamos resolver é a falta de dados precisos. Hoje, muitas vezes, o poder público só age depois que o desastre acontece. Nosso objetivo é dar a ferramenta para que eles possam se antecipar”, acrescenta Ferreira.
O estudo aponta que as prefeituras podem adotar medidas de baixo custo e alta eficiência. Entre as ações corretivas recomendadas para áreas já degradadas estão sistemas de drenagem, reflorestamento e “soluções de bioengenharia de baixo custo para estabilização de encostas com troncos de fibra de coco e capim vetiver”.
Para o monitoramento contínuo, Abed sugere a adoção de tecnologias acessíveis: “O estudo permite o monitoramento comunitário e contínuo com o uso de drones de baixo custo e aplicativos móveis para a detecção precoce de mudanças nas encostas ou novos desmatamentos”.
A ciência produzida pela UFF cumpre, assim, seu papel transformador. “A UFF devolve para a sociedade o conhecimento produzido dentro dos laboratórios. […] É a ciência da UFF ajudando a salvar vidas e a planejar cidades onde seja mais seguro e sustentável viver”, conclui o professor Fábio Ferreira.
Perguntas e Respostas sobre o Estudo da UFF
O que é o Inventário da Degradação do Solo da UFF?
É uma pesquisa do departamento de Análise Geoambiental da UFF que utilizou imagens de satélite e técnicas de geoprocessamento para mapear, avaliar e propor estratégias de gestão para a zona costeira do Rio de Janeiro ao longo de 40 anos (1984 a 2024).
Quais são os pontos mais críticos identificados no litoral do Rio de Janeiro?
A faixa entre Búzios e São Francisco de Itabapoana é a mais crítica, com mais de 25% de área instável devido ao desmatamento para pecuária e café. A Costa Verde também preocupa pelo crescimento urbano de 254% em 40 anos, deixando cidades como Angra dos Reis com mais de 60% do território suscetível a deslizamentos.
O que são os “hotspots” de degradação citados na pesquisa?
São áreas onde as pressões humanas (como urbanização desordenada, desmatamento, incêndios e planejamento inadequado de estradas) se sobrepõem às vulnerabilidades naturais do próprio terreno (como encostas íngremes, chuvas intensas e solos frágeis).
Qual foi a descoberta surpreendente sobre as Ilhas de Maricá?
O estudo revelou que a presença de 50 cabras no local foi positiva para a conservação. O pastejo seletivo, a ciclagem de nutrientes e a dispersão de sementes promovidos pelos animais ajudaram a expandir a vegetação densa de 8,4 hectares em 1940 para 19,8 hectares em 2024.
Como a pesquisa pode ajudar o poder público a evitar tragédias urbanas?
Os mapas permitem que os municípios ajam de forma preventiva, impedindo construções em áreas de risco e APPs. O estudo sugere a aplicação de soluções de bioengenharia de baixo custo (como troncos de fibra de coco e capim vetiver) e o monitoramento comunitário contínuo por meio de drones e aplicativos móveis.
Perguntas e Respostas sobre o Estudo da UFF
O que é o Inventário da Degradação do Solo da UFF?
É uma pesquisa do departamento de Análise Geoambiental da UFF que utilizou imagens de satélite e técnicas de geoprocessamento para mapear, avaliar e propor estratégias de gestão para a zona costeira do Rio de Janeiro ao longo de 40 anos (1984 a 2024).
Quais são os pontos mais críticos identificados no litoral do Rio de Janeiro?
A faixa entre Búzios e São Francisco de Itabapoana é a mais crítica, com mais de 25% de área instável devido ao desmatamento para pecuária e café. A Costa Verde também preocupa pelo crescimento urbano de 254% em 40 anos, deixando cidades como Angra dos Reis com mais de 60% do território suscetível a deslizamentos.
O que são os “hotspots” de degradação citados na pesquisa?
São áreas onde as pressões humanas (como urbanização desordenada, desmatamento, incêndios e planejamento inadequado de estradas) se sobrepõem às vulnerabilidades naturais do próprio terreno (como encostas íngremes, chuvas intensas e solos frágeis).
Qual foi a descoberta surpreendente sobre as Ilhas de Maricá?
O estudo revelou que a presença de 50 cabras no local foi positiva para a conservação. O pastejo seletivo, a ciclagem de nutrientes e a dispersão de sementes promovidos pelos animais ajudaram a expandir a vegetação densa de 8,4 hectares em 1940 para 19,8 hectares em 2024.
Como a pesquisa pode ajudar o poder público a evitar tragédias urbanas?
Os mapas permitem que os municípios ajam de forma preventiva, impedindo construções em áreas de risco e APPs. O estudo sugere a aplicação de soluções de bioengenharia de baixo custo (como troncos de fibra de coco e capim vetiver) e o monitoramento comunitário contínuo por meio de drones e aplicativos móveis.
*Com informações de UFF