Pessoas fazendo prova | Foto: Ilustrativa / LensGO
[Foto: Ilustrativa / LensGO]

- Abaixo de 5%: Pela primeira vez desde 2016, a taxa de analfabetismo no Brasil recuou para 4,9%, totalizando 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler ou escrever um bilhete simples.
- Desigualdade Estrutural: O Nordeste concentra mais da metade dos analfabetos do país (4,8 milhões de pessoas), enquanto idosos pretos ou pardos registram uma taxa de analfabetismo quase três vezes superior à de brancos.
- Abandono Escolar: O mercado de trabalho é o principal motivo para homens abandonarem os estudos (54,2%), ao passo que trabalho (26,2%) e gravidez (24,7%) dividem o topo entre as causas de evasão feminina.
O Brasil alcançou um marco histórico em sua trajetória educacional, mas ainda enfrenta velhos desafios estruturais. Em 2025, o contingente de pessoas analfabetas no país recuou para 8,4 milhões, o que representa uma taxa de analfabetismo de 4,9% entre a população de 15 anos ou mais. Esta é a primeira vez na série histórica, iniciada em 2016, que o índice se posiciona abaixo do patamar de 5%. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio do módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.
O avanço significa que o país registrou 592 mil pessoas a menos na condição de analfabetismo em comparação com o ano de 2024. A série histórica (2016-2025) passou por uma reponderação com base nos resultados do Censo Demográfico 2022. Contudo, apesar do progresso estatístico, o indicador evidencia o descumprimento de uma das metas mais importantes do setor: o Plano Nacional de Educação (PNE) previa a erradicação completa do analfabetismo até o ano de 2024.
O perfil do analfabetismo: Concentração no Nordeste e foco na população idosa
Os números do IBGE mostram que o analfabetismo no Brasil tem endereço e faixa etária bem definidos. Mais da metade de todos os analfabetos do país, um total de 4,8 milhões de pessoas, reside na Região Nordeste, onde a taxa de analfabetismo atinge 10,6%. O Norte aparece logo em seguida com 5,7%, acompanhado pelo Centro-Oeste (3,3%), Sul (2,4%) e Sudeste (2,3%). Na comparação direta com 2024, apenas o Sudeste obteve uma redução efetiva em sua taxa, com recuo de 0,5 ponto percentual (p.p.).
A idade também é um fator determinante. Os cidadãos com 60 anos ou mais representavam 58% do total de analfabetos em 2025. Isso significa que 4,9 milhões de idosos não eram capazes de ler e escrever um bilhete simples, o equivalente a 13,8% de toda a população nessa faixa etária. Quando o recorte exclui o grupo idoso, a taxa de analfabetismo cai drasticamente para 2,6% entre pessoas de 15 a 59 anos.
O analista da pesquisa, William Kratochwill, explica o cenário: “A diferença entre esses grupos da população reforça a importância de políticas de manutenção de crianças e jovens na escola, bem como aquelas específicas para alfabetização de adultos e idosos. Também indica que as novas gerações tiveram maior acesso à escolarização e foram alfabetizadas ainda na infância. Portanto, o analfabetismo segue mais associado aos idosos”.
Virada histórica entre as mulheres e o abismo racial no topo da pirâmide etária
Pela primeira vez na história da pesquisa, a taxa de analfabetismo das mulheres com 60 anos ou mais (13,7%) tornou-se menor do que a dos homens na mesma faixa etária (14,1%). No panorama geral de 15 anos ou mais, a população feminina já mantinha a dianteira na alfabetização, registrando taxa de 4,6% contra 5,2% da masculina. Conforme avalia Kratochwill, “esses resultados sugerem avanços na escolarização feminina em todas as gerações, apontando para uma reversão do legado de desigualdade educacional do passado”.
Por outro lado, o recorte por cor ou raça expõe a manutenção de uma disparidade profunda. Na população de 15 anos ou mais, a proporção de analfabetos é de 2,8% para brancos e salta para 6,5% entre pretos ou pardos. A distância amplia-se drasticamente no grupo com 60 anos ou mais: a taxa de analfabetismo entre idosos pretos ou pardos atinge 20,6%, índice quase três vezes maior do que o registrado entre os brancos (7,3%).
“Em relação a 2024, houve queda de 1,2 p.p. na taxa de analfabetismo entre idosos pretos ou pardos, o que sugere avanço, mas evidencia um legado estrutural público de exclusão educacional”, destaca William Kratochwill.
Avanços no Ensino Médio e barreiras no Ensino Superior
Pela primeira vez, mais da metade dos pretos ou pardos com 25 anos ou mais de idade completou o ensino médio, alcançando o percentual de 51,3%. Apesar do feito inédito, a desvantagem em relação aos brancos (64,9%) é de 13,6 p.p. Essa distância permaneceu praticamente idêntica à de 2024 (13,3 p.p.), embora mostre melhora frente aos 16,4 p.p. registrados em 2016. No geral da população com 25 anos ou mais, a conclusão da educação básica obrigatória chegou a 57,4% em 2025, com destaque para a fatia de pessoas que possuem somente o ensino médio completo, que saltou de 27,1% (2016) para 31,8% (2025).
A média de anos de estudo dessa população adulta (25 anos ou mais) subiu para 10,2 anos em 2025, contra 9,1 anos em 2016 e 10,1 anos em 2024. As mulheres mantêm maior escolaridade média (10,4 anos) que os homens (10,0 anos). Na divisão racial, brancos registram 11,1 anos de estudo, enquanto pretos ou pardos somam 9,5 anos, uma diferença de 1,6 ano que, embora menor do que os dois anos observados em 2016, continua elevada.
No Ensino Superior, as desigualdades se agravam. Apenas 24,5% dos jovens de 18 a 24 anos frequentavam a graduação em 2025 (alta de 1,4 p.p. frente a 2024), enquanto 7,0% enfrentavam atraso escolar. A proporção de brancos dessa faixa etária que já concluíram o ensino superior e não frequentam instituição de ensino (6,2%) é mais que o dobro da observada entre pretos ou pardos (3,0%). Adicionalmente, 33,4% dos brancos estavam na etapa ideal (ensino superior) contra 18,9% de pretos ou pardos. Na parcela que não frequentava e não havia concluído a graduação, o índice foi de 70,1% para negros e 55,0% para brancos.
Kratochwill lembra que a meta 12 do PNE previa elevar a taxa de frequência líquida no ensino superior para 33,0% até 2024. “Essa meta foi superada apenas entre as pessoas brancas. O desafio do país, portanto, envolve reduzir as desigualdades de acesso e conclusão no ensino superior, enfrentar o atraso escolar, bem como garantir a permanência dos jovens no sistema educacional”.
Na análise por sexo, 35,1% das mulheres de 18 a 24 anos frequentavam algum curso, contra 28,0% dos homens. No ensino superior propriamente dito, estavam 28,8% das mulheres e 20,3% dos homens. A conclusão dessa etapa foi de 5,2% para elas e 3,4% para eles. Os homens apresentaram maior atraso escolar (7,7%) e maior taxa de não frequência combinada com não conclusão (68,7%, contra 59,7% das mulheres).
Gargalos desde o início da vida: A escassez de creches no Norte e Nordeste
A infância e a adolescência também carregam marcas de exclusão. Em 2025, a opção dos pais ou responsáveis foi o principal motivo para a não frequência à creche de crianças de 0 a 1 ano (64,1%) e de 2 a 3 anos (57,1%). O maior índice dessa justificativa para bebês ocorreu no Centro-Oeste (73,6%) e o menor no Nordeste (58,5%). Para a faixa de 2 a 3 anos, o Centro-Oeste também liderou (65,5%) e o Norte registrou a menor taxa (49,4%).
Contudo, o segundo motivo expõe a falta de infraestrutura pública: a inexistência de escola/creche na localidade, a falta de vagas ou a recusa de matrícula por questões de idade. Esse obstáculo afetou 28,1% das crianças de 0 a 1 ano e 33,4% das de 2 a 3 anos em âmbito nacional. O Norte e o Nordeste sofreram as piores consequências desse cenário. No Norte, 35,2% dos bebês e 44,5% das crianças de 2 a 3 anos estavam fora das creches por falta de vagas ou escolas locais. No Nordeste, os percentuais foram de 36,1% e 37,2%, respectivamente.
Na faixa de 6 a 14 anos, correspondente ao ensino fundamental, a taxa de crianças na etapa ideal atingiu 96,1% em 2025. O índice cumpre a meta de 95% do PNE e supera o resultado de 2024 (94,6%), mas ainda fica abaixo dos patamares anteriores à pandemia de COVID-19. Conforme detalha o analista da pesquisa, as crianças menores enfrentaram maiores problemas de adaptação com as aulas virtuais. “Essas crianças podem não ter se adaptado às aulas online ou podem ter sido tiradas da escola pelos pais durante a pandemia. Assim, esse período criou um grupo de crianças que perderam um ou dois anos de estudo, ficando, então, atrasados”, avalia.
Desigualdade de gênero e raça afasta jovens do Ensino Médio
Entre os jovens de 15 a 17 anos, 80,6% estavam matriculados ou já haviam concluído o ensino médio em 2025. O número subiu 3,8 p.p. em relação a 2024, mas segue 4,4 p.p. abaixo da meta de 85% traçada pelo PNE. O acesso e permanência guardam profundas assimetrias: 84,0% das mulheres frequentavam ou concluíram o ensino médio, contra 77,4% dos homens. Entre os brancos, a proporção na idade ideal foi de 84,9%, enquanto para pretos ou pardos fixou-se em 77,8%.
Apesar da distância, o avanço histórico foi mais acelerado entre as minorias. Desde 2016, a frequência na idade adequada para pretos ou pardos cresceu 14,7 p.p. (contra 8,8 p.p. de brancos) e o índice dos homens subiu 14,0 p.p. (frente a 10,7 p.p. das mulheres). “Embora pretos ou pardos e homens ainda estejam atrás em relação a pessoas brancas e mulheres, os dados mostram uma redução na desigualdade na série histórica da pesquisa”, diz Kratochwill.
O retrato do abandono escolar: Trabalho, desinteresse e gravidez na juventude
A PNAD Contínua aponta que 7,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos não concluíram a educação básica em 2025 por terem abandonado os estudos ou por nunca terem frequentado a escola. A composição desse grupo revela que 59,8% são homens, 40,2% são mulheres, 26,4% se declaram brancos e 72,8% pertencem ao grupo de pretos ou pardos.
Os picos de abandono concentram-se a partir dos 16 anos de idade: 18,5% deixaram a escola com 16 anos; 20,0% aos 17 anos; e 17,6% aos 18 anos. No entanto, a evasão precoce no ensino fundamental ainda cobra um preço alto: 7,5% abandonaram até os 13 anos e 7,6% saíram aos 14 anos.
“Os percentuais de abandono antes dos 14 anos equivalente a 15,1% do total. São elevados e caracterizam-se como elementos fundamentais na precarização da formação do indivíduo. Esse dado representa saídas durante o ensino fundamental, etapa que deveria estar plenamente universalizada. Esse padrão se manteve semelhante entre homens e mulheres e entre as pessoas de cor branca e preta ou parda”, salienta William Kratochwill. O analista acrescenta que a idade de 15 anos marca uma transição crítica na vida escolar, onde o abandono dobra em relação ao ano anterior: “Nesse ponto, o percentual de abandono escolar quase dobra em relação aos 14 anos, alcançando 13,5%”.
A necessidade de trabalhar desponta como o principal motivo para a evasão escolar, afetando 43,0% dos jovens de 14 a 29 anos em 2025 (um incremento de 1,0 p.p. em relação a 2024). Em segundo lugar aparece a falta de interesse em estudar, com 25,6%, interrompendo uma tendência de queda observada até o ano anterior. “O aumento em relação aos últimos anos pode sinalizar um desalinhamento entre as expectativas dos jovens e o modelo educacional”, pontua Kratochwill. Entre os demais motivos citados, a gravidez representou 9,9%; problemas de saúde permanente, 4,4%; afazeres domésticos ou cuidados com pessoas, 3,9%; e ausência de escola, vaga ou turno desejado na região, 2,8%.
As razões para o afastamento das salas de aula divergem radicalmente quando analisadas sob a perspectiva de gênero. Para os homens de 14 a 29 anos sem ensino médio completo, trabalhar é a principal justificativa (54,2%), seguida do desinteresse (28,0%) e problemas de saúde (4,7%).
Para as mulheres, embora o trabalho lidere com 26,2%, as demandas ligadas às responsabilidades domésticas e familiares ganham peso severo: a gravidez afasta 24,7% das jovens e a realização de afazeres domésticos ou cuidados de terceiros responde por 8,6%. O desinteresse pelos estudos foi apontado por 21,9% das mulheres desse grupo.
“São resultados que evidenciam que, foras da condição econômica, as responsabilidades reprodutivas e domésticas ainda figuram entre os principais entraves à permanência das mulheres jovens na escola, ao passo que a necessidade de trabalhar mantém os homens fora da escola em maior proporção”, conclui Kratochwill.
*Com informações de IBGE
