Laboratório realizando exame | Imagem: Ilustrativa / Google AI
[Imagem: Ilustrativa / Google AI]

- Inovação: Estudo liderado pelo IOC/Fiocruz, publicado na revista ACS Infectious Diseases, aponta caminhos para novos fármacos contra o Schistosoma mansoni.
- Superação de barreiras: Pesquisa busca alternativas ao praziquantel, medicamento padrão que apresenta desafios como sabor amargo e potencial resistência do parasita.
- Descoberta técnica: Cientistas revelaram a “plasticidade” de um receptor no verme, permitindo o desenvolvimento de compostos mais eficazes e com melhor aceitação farmacológica.
Uma nova pesquisa liderada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em colaboração com instituições internacionais e a UFRJ, traz esperança para o tratamento da esquistossomose, doença conhecida popularmente como “xistose”, “barriga d’água” ou “doença dos caramujos”. O estudo, que ganhou destaque na capa da revista científica ACS Infectious Diseases, identificou três moléculas com atividade contra o verme Schistosoma mansoni, abrindo caminho para o desenvolvimento de fármacos que possam oferecer vantagens em relação ao tratamento atual.
Segundo a Fiocruz, a esquistossomose está diretamente ligada à falta de saneamento. De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas de transmissão no Brasil. Em escala global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 700 milhões de pessoas estão sob risco de infecção.
Limitações do Praziquantel
Atualmente, o tratamento é baseado no uso do praziquantel, fármaco utilizado há quatro décadas. Embora eficaz, a Fiocruz explica que o medicamento apresenta desafios práticos que dificultam a adesão dos pacientes, especialmente o público infantil, devido ao sabor amargo e ao tamanho grande do tablete. Além disso, embora não sejam um problema de saúde pública documentado em campo, cientistas já observaram vermes que desenvolveram resistência ao fármaco em condições experimentais.
“É importante buscar alternativas ao praziquantel. Nosso objetivo é chegar a medicamentos que possam ser otimizados do ponto de vista farmacológico, facilitando a administração e garantindo uma opção na eventualidade de resistência”, explica Floriano Paes, chefe do Laboratório de Bioquímica Experimental e Computacional de Fármacos do IOC/Fiocruz e primeiro autor do estudo.
Inovação no desenho de fármacos
Por meio de ensaios laboratoriais e análises computacionais, a equipe testou oito moléculas com estrutura química semelhante ao praziquantel, mas com pequenas modificações. Três desses compostos demonstraram eficácia contra diferentes estágios do ciclo de vida do parasita, vermes adultos, formas juvenis e larvas (esquistossômulos).
O diferencial da pesquisa reside na descoberta do mecanismo de ação desses compostos. Ao investigar como essas substâncias se ligam a uma proteína do verme conhecida como TRPM, os pesquisadores observaram uma característica inesperada.
“Dados de diversos trabalhos indicavam que o praziquantel se liga quase perfeitamente a uma proteína do parasito, que atua como um receptor. Porém, nós observamos que este receptor tem plasticidade, ou seja, ele consegue abrir espaço para ligação com moléculas um pouco diferentes. Isso abre possibilidade de explorar novos caminhos para desenhar compostos que superem deficiências do praziquantel”, afirma Floriano.
A pesquisa contou com a parceria da Faculdade de Medicina de Wisconsin (EUA), Universidade Aberystwyth (Reino Unido) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Próximos passos
Embora as novas substâncias não tenham superado a potência do praziquantel contra vermes adultos nos testes iniciais, suas características moleculares são promissoras para a otimização estrutural. O próximo passo da equipe é levar a investigação para ensaios in vivo.
“Com base nos resultados, podemos propor modificações mais racionais na estrutura desses compostos para atuar na forma como eles se ligam ao receptor, aumentando a afinidade. No modelo de infecção em roedores, queremos investigar como essas moléculas se comportam no organismo em comparação ao praziquantel e verificar se é possível melhorar aspectos farmacológicos”, conclui o pesquisador.
*Com informações de Fiocruz
