Giroscópio de carro de polícia | Foto: Ilustrativa / LensGo
Se você tem acompanhado o noticiário financeiro e de segurança pública, certamente se deparou com a Pixwave Soluções de Pagamentos e a Victory Trading. As duas empresas brasileiras ganharam as manchetes internacionais após sofrerem duras sanções econômicas do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Mas uma dúvida paira no ar: o Brasil foi pego de surpresa ou as autoridades nacionais já sabiam o que estava acontecendo?
A resposta é clara: o Brasil já investigava, monitorava e até já havia prendido o operador por trás dessas empresas muito antes de Washington agir.
Entenda, a seguir, a cronologia completa dessa rede de lavagem de dinheiro.
1. A Origem das Suspeitas no Brasil: O Escândalo do Futebol
As investigações brasileiras começaram muito longe do mercado financeiro tradicional: elas nasceram nos bastidores do futebol.
Em 2024, estourou o escândalo de desvios e fraudes contratuais no milionário patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet. Durante a apuração, a polícia descobriu que parte do dinheiro das comissões do contrato sumia em uma teia de empresas de fachada.
Foi nesse momento que a Victory Trading, controlada pelo empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, e a Pixwave acenderam os alertas dos investigadores brasileiros.
Quais órgãos brasileiros lideraram a investigação?
O caso foi conduzido por uma força-tarefa de peso:
- Polícia Civil de São Paulo: Por meio da Delegacia de Crimes Financeiros, que mapeou as transações bancárias.
- Ministério Público de São Paulo (MPSP): Através do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), que conectou as fraudes fiscais à atuação de facções criminosas.
- COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras): Órgão de inteligência que emitiu Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) apontando movimentações atípicas.
2. As Provas e as Ações Tomadas no Brasil
As autoridades nacionais reuniram um vasto conjunto de provas e aplicaram medidas restritivas duras contra os envolvidos:
- O Rastro do Dinheiro (As Provas): O COAF e a Polícia Civil identificaram que a Victory Trading realizou movimentações milionárias, fracionadas e atípicas (superando R$ 13 milhões em poucos dias em março de 2024). O dinheiro passava de forma relâmpago por contas intermediárias para mascarar a origem antes de chegar ao destino final.
- A Conexão com o Crime Organizado: Nos bastidores, as investigações do MPSP ganharam força após a delação premiada de Vinícius Gritzbach (corretor executado no aeroporto de Guarulhos no fim de 2024). Ele detalhou como o Primeiro Comando da Capital (PCC) usava empresas de fachada e criptomoedas para se infiltrar no futebol e lavar dinheiro do tráfico internacional.
- Prisão do Operador: Como resultado direto das investigações brasileiras, Victor Shimada foi preso pela Polícia Federal em janeiro de 2025. Ele chegou a cumprir prisão preventiva e domiciliar antes de ser liberado para responder ao processo em liberdade.
- Evolução Judicial: Em julho de 2025, a Justiça de São Paulo aceitou formalmente a denúncia do Ministério Público, tornando Shimada e seus associados réus por lavagem de dinheiro.
Por que as empresas não foram fechadas pelo Banco Central?
Uma dúvida comum é por que o Banco Central do Brasil (BC) não cassou a licença da Pixwave e da Victory Trading. A resposta é simples: elas nunca tiveram licença.
A Pixwave usava “Soluções de Pagamentos” no nome, mas seu registro na Junta Comercial constava apenas como atividade de “apoio administrativo” e “provedores de conteúdo”. Ambas operavam à margem do sistema regulado pelo BC, funcionando essencialmente como empresas fantasmas para transacionar criptoativos. O que o Brasil fez, por meio da Justiça Criminal, foi o bloqueio judicial de todas as contas bancárias ligadas ao grupo.
3. O Radar de Washington: O que Fez o Tesouro dos EUA Agir?
Se o Brasil já estava processando os envolvidos, o que motivou a entrada do Departamento de Tesouro dos EUA e do FBI na jogada? A resposta está na internacionalização do crime.
Em janeiro de 2026, o FBI, o Departamento de Justiça (DOJ) e a Segurança Interna dos EUA realizaram uma grande operação na Flórida, prendendo seis pessoas. Esse grupo operava uma célula que lavava os lucros do tráfico de cocaína enviado para a Europa.
Ao rastrear a tecnologia blockchain e as carteiras digitais de criptomoedas usadas pelos criminosos na Flórida para enviar o dinheiro de volta, as agências americanas bateram diretamente nas contas controladas por Victor Shimada no Brasil. O Tesouro Americano concluiu que a Victory Trading e a Pixwave seriam os “portos seguros” que reinseriam o dinheiro de origem supostamente ilícita na economia legal.
4. A Ação dos EUA Teve Base nas Investigações Brasileiras?
Embora o estopim para as sanções americanas tenha sido a prisão da célula na Flórida em 2026, a velocidade e a precisão da ação do Tesouro Americano (OFAC) refletem uma possível cooperação internacional de inteligência.
O Brasil e os Estados Unidos mantêm acordos bilaterais de partilha de informações financeiras. Os relatórios produzidos pelo COAF, pela Polícia Civil e pelo MPSP entre 2024 e 2025 podem ter servido como uma “folha de rota” para que o FBI compreendesse a estrutura corporativa de Shimada no Brasil. Sem o mapeamento prévio feito pelas autoridades brasileiras, o governo americano poderia ter mais dificuldade para ligar os suspeitos da Flórida às empresas de fachada em São Paulo de forma tão rápida.
Em resumo: Órgãos brasileiros descobriram o esquema que ocorria no Brasil, prendeu o operador e o tornou réu. Os Estados Unidos, ao identificarem que a mesma rede utilizava o sistema em dólar e transitava por solo americano, aplicaram uma medida financeira internacional, asfixiando os ativos globais dessas empresas.
