Bandeira do Brasil | Foto: Richard Souza / AN
[Foto: Richard Souza / AN]

Em 1958, na Suécia, a Seleção Brasileira conquistou o seu primeiro título na Copa do Mundo FIFA, uma campanha histórica que transformou a trajetória do futebol nacional. O início daquela jornada, contudo, apresentou uma configuração muito diferente daquela que se imortalizou no imaginário dos torcedores. Na partida de estreia, o Brasil enfrentou a seleção da Áustria e aplicou um placar de 3 a 0, mas a escalação inicial contava com Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nílton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Dida e Zagallo. Nomes que se tornariam os maiores pilares da conquista, como Pelé e Garrincha, além do futuro artilheiro Vavá, iniciaram a competição no banco de reservas, evidenciando as mudanças profundas que a equipe sofreu ao longo do torneio.
As ausências de Pelé, Vavá e Garrincha no início da campanha
As razões para que os principais craques do Brasil não figurassem no time titular na estreia eram distintas. Três dias antes do embarque da delegação para a Suécia, Pelé sofreu uma pancada violenta que machucou o seu joelho durante um jogo amistoso. Apesar do susto, o médico da Seleção Brasileira, Hilton Gosling, previu que o jovem atleta teria plenas condições de se recuperar no decorrer do Mundial, embora sua presença no primeiro confronto estivesse completamente descartada. Já o atacante Vavá ainda disputava espaço para cavar seu lugar na equipe.
O cenário em torno de Garrincha envolvia fatores técnicos e comportamentais. Até o ano de 1958, o ponta-direita havia atuado somente duas vezes pela Seleção, tendo sido escalado de forma improvisada pelo lado esquerdo do campo. Na época, o estilo de jogo ousado e desconcertante do atleta do Botafogo, embora deslumbrasse o público, gerava intensos questionamentos na imprensa esportiva brasileira. Os analistas debatiam se a suposta “falta de seriedade” do jogador seria saudável para o desempenho coletivo do time. Em contrapartida, o titular Joel recebia elogios frequentes dos críticos devido à sua aplicação tática defensiva e regularidade em campo.
O empate com a Inglaterra e a consolidação do Anjo de Pernas Tortas
A mudança estrutural na Seleção Brasileira ocorreu após a segunda rodada da fase de grupos, quando o Brasil empatou por 0 a 0 com a Inglaterra, registrando o primeiro placar sem gols da história das Copas do Mundo. Diante desse resultado, a comissão técnica promoveu um rearranjo tático fundamental para o restante da competição. O volante Zito, caracterizado por seu perfil de forte marcação, foi introduzido no meio-campo, abrindo espaço para que Garrincha assumisse a titularidade definitiva no ataque.
A estreia do ponta-direita como titular aconteceu no confronto decisivo contra a União Soviética. Durante a partida, o atacante atormentou a linha de defesa adversária com seus dribles, provocando gargalhadas na plateia presente no estádio e garantindo sua permanência no time. A partir daquele momento, Garrincha consolidou-se como peça insubstituível do ataque brasileiro, pavimentando o caminho que o levaria a liderar a Seleção Brasileira rumo ao bicampeonato mundial na edição seguinte, em 1962.
A postura de Didi na final e a origem do gesto de erguer a taça
Durante a grande final do torneio contra os donos da casa, a Suécia, o país anfitrião abriu o placar logo no início do jogo por intermédio do jogador Liedholm, gerando apreensão nos atletas brasileiros e na torcida. Diante do revés inicial, o meio-campista Didi demonstrou um controle emocional que marcou a decisão. Conhecido pelo apelido de “Príncipe Etíope”, o jogador recolheu a bola de dentro do próprio gol brasileiro, após o passe do zagueiro Bellini, e caminhou de forma altiva e em passos lentos em direção ao círculo central do gramado. Diante do desespero de companheiros de equipe, incluindo o ponta Zagallo, Didi afirmou convictamente que o Brasil sairia vencedor do confronto.
A partida terminou com a vitória da Seleção Brasileira, trazendo o monarca Gustaf VI Adolf ao campo de jogo para cumprimentar os novos campeões mundiais. A Taça Jules Rimet passou pelas mãos de diversas autoridades políticas e esportivas até ser entregue oficialmente ao capitão e zagueiro brasileiro, Bellini. Naquele momento, os fotógrafos que cobriam o evento solicitaram ao defensor que ele elevasse o troféu para permitir um melhor ângulo de captação das imagens. De maneira improvisada, Bellini ergueu a taça acima da cabeça, um gesto que se tornou um ritual definitivo e repetido por todos os capitães nas edições posteriores do futebol mundial.
O mistério do uniforme azul e a superstição de 1950
Um dos fatos mais marcantes de 1958 envolveu a escolha das vestimentas para a finalíssima. Brasil e Suécia eram as duas únicas seleções do torneio que utilizavam a cor amarela em suas camisas principais. Embora os padrões da época sugerissem que o país anfitrião adotasse um uniforme reserva, os escandinavos recusaram-se a abrir mão de suas cores. Um sorteio oficial determinou que a Seleção Brasileira teria de trocar de vestuário, porém, o segundo uniforme do Brasil era de cor branca, o que ativou uma forte superstição no elenco por remeter diretamente à derrota sofrida na final da Copa de 1950.
Para resolver o impasse, o roupeiro da delegação, Francisco de Assis, recebeu a missão de encontrar um novo conjunto de camisas no comércio local e adquiriu o manto azul. Na véspera da partida, buscando tranquilizar os jogadores que temiam o impacto da troca, o chefe da delegação nacional, Paulo Machado de Carvalho, proferiu um discurso assegurando que o azul representava a cor de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Somado ao argumento religioso, o dirigente destacou que todas as seleções que haviam disputado uma final de Copa do Mundo utilizando a cor azul haviam terminado a competição como campeãs, o que se confirmou no dia seguinte.
Elenco Completo da Seleção Brasileira Campeã do Mundo em 1958
A tabela abaixo apresenta a listagem oficial de todos os jogadores que integraram a delegação brasileira na Suécia, divididos por suas respectivas posições e com os seus clubes de origem à época.
| Posição Oficial | Nome do Jogador | Clube de Origem (1958) |
| Goleiro | Gilmar | Corinthians |
| Goleiro | Castilho | Fluminense |
| Lateral | Djalma Santos | Portuguesa |
| Lateral | Nilton Santos | Botafogo |
| Lateral | De Sordi | São Paulo |
| Lateral | Oreco | Corinthians |
| Zagueiro | Bellini (Capitão) | Vasco da Gama |
| Zagueiro | Orlando | Vasco da Gama |
| Zagueiro | Mauro | São Paulo |
| Zagueiro | Zózimo | Bangu |
| Meio-campista | Zito | Santos |
| Meio-campista | Didi | Botafogo |
| Meio-campista | Dino Sani | São Paulo |
| Meio-campista | Moacir | Flamengo |
| Atacante | Pelé | Santos |
| Atacante | Garrincha | Botafogo |
| Atacante | Vavá | Vasco da Gama |
| Atacante | Mazzola | Palmeiras |
| Atacante | Dida | Flamengo |
| Atacante | Joel | Flamengo |
| Atacante | Pepe | Santos |
