[Foto: Aline / GE]
- A ilusão das estatísticas: Embora os registros oficiais apontem uma queda de quase 40% nas taxas de homicídio na última década, os “homicídios ocultos” no estado do Rio de Janeiro explodiram, mascarando a real letalidade.
- A nova geografia do medo: A capital fluminense deixou o topo do ranking estadual. Cidades da Baixada Fluminense e do interior, como Queimados, Itaperuna e Itaguaí, assumiram a liderança nas taxas de homicídios estimados.
- O novo negócio do crime: O modelo centrado no varejo de drogas cedeu espaço para a expropriação econômica de territórios, engolindo os municípios menores e alterando profundamente a sensação de segurança.
A última década reescreveu a dinâmica criminal no estado do Rio de Janeiro. É o que revela um raio-X inédito baseado na edição 2026 do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Se em 2014 o debate público era dominado pelos confrontos abertos nas grandes metrópoles, em 2024 os dados revelam um crime organizado muito mais silencioso, com uma atuação interiorizada e um impacto assustador nos sistemas de notificação de saúde.
A primeira vista, os registros oficiais da área da saúde sugerem um cenário de alívio: a taxa oficial de homicídios no estado despencou de 33,9 por 100 mil habitantes em 2014 para 20,4 em 2024 (uma redução de 39,8%). Contudo, ao cruzar esses números com a métrica de Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), a verdadeira face da violência fluminense aparece.
(por 100 mil hab.)
(MVCI – Números Absolutos)
(Números Absolutos)
A epidemia dos “Homicídios Ocultos”
Segundo os dados, o Rio de Janeiro vive uma grave crise de subnotificação da letalidade. Em 2014, o estado havia registrado 910 Mortes Violentas por Causa Indeterminada. Dez anos depois, esse número saltou para assustadores 2.710 casos (aumento de 197,8%).
Para corrigir essa distorção, o Atlas da Violência estima os chamados “homicídios ocultos”, mortes que o Estado não conseguiu classificar oficialmente, mas que os padrões indicam tratar-se de assassinatos. E é aqui que o rosto da violência fluminense se transforma. Os homicídios ocultos no Rio cresceram absurdos 179,5% na década (passando de 244 casos para 682).
Na taxa estimada por 100 mil habitantes, que soma os registros oficiais aos homicídios ocultos, o Rio de Janeiro chegou a 2024 com 24,4 assassinatos a cada 100 mil pessoas, bem acima do cenário “otimista” dos registros brutos. Somente na capital fluminense, dos 1.420 homicídios estimados no ano, 241 eram mortes invisibilizadas pelas falhas de registro.
Assassinatos a cada 100 mil habitantes, valor que corrige as falhas e supera o cenário “otimista” dos registros oficiais.
Apenas na capital, 241 mortes foram invisibilizadas pelas falhas de registro do Estado em 2024.
A expansão para o Interior e a Baixada Fluminense
A década foi marcada por um êxodo do crime armado em direção a áreas que antes figuravam fora das manchetes policiais diárias. A análise detalhada dos municípios fluminenses com mais de 100 mil habitantes prova que a violência letal se interiorizou e se concentrou na Baixada Fluminense.
Em 2024, a cidade do Rio de Janeiro registrou uma taxa estimada de 21,1 homicídios por 100 mil habitantes, ficando muito atrás de municípios de porte médio. O município de Queimados, na Baixada, liderou o triste ranking estadual com uma taxa de 52,3. Logo em seguida, configurando o avanço para o Noroeste do estado e para a Costa Verde, aparecem Itaperuna (49,4) e Itaguaí (49,2). Outros municípios com índices superiores a 35 mortes por 100 mil habitantes incluem Japeri (43,1), São João de Meriti (37,1), Belford Roxo (36,5), Cabo Frio (36,1) e Barra Mansa (35,2).
Essa dispersão geográfica não ocorreu por acaso, mas por uma mudança estratégica e de negócios das organizações criminosas. Como aponta o documento do Ipea/FBSP:
“De forma paulatina, como ocorre, principalmente, no Rio de Janeiro, assistimos à expansão de áreas em que o controle territorial armado do crime foi a ponta de lança para a expropriação econômica e de outros direitos fundamentais dos residentes locais. Porém, a expansão desses grupos criminosos não foi apenas nas capitais, atingindo cidades menores e no interior do país.”
A Interiorização da Violência no RJ
Taxa Estimada de Homicídios por 100 mil habitantes (2024)“De forma paulatina, como ocorre, principalmente, no Rio de Janeiro, assistimos à expansão de áreas em que o controle territorial armado do crime foi a ponta de lança para a expropriação econômica e de outros direitos fundamentais dos residentes locais. Porém, a expansão desses grupos criminosos não foi apenas nas capitais, atingindo cidades menores e no interior do país.”
— Atlas da Violência (Ipea/FBSP)Quem são as vítimas dessa nova dinâmica?
Embora os volumes totais tenham caído, a estrutura da vitimização mantém sua cruel seletividade. O uso de armas de fogo ainda ditou o tom das execuções em 2024, respondendo por 60,6% dos assassinatos no estado, ainda que esse número represente a menor participação desse meio na década.
A população negra continuou sendo o principal alvo. Em 2024, a taxa de homicídios de pessoas negras no RJ foi de 27,6 por 100 mil habitantes, sendo 2,5 vezes maior do que a taxa de pessoas não negras (11,2). Os jovens (15 a 29 anos) também lideraram as estatísticas, atingindo a taxa de 49,9 homicídios por 100 mil na faixa etária, comprovando que, mesmo mudando de endereço e de negócio, o crime organizado fluminense segue abreviando a vida do mesmo perfil demográfico.
*Com informações de FBSP
