Bandeira Americana | Foto: Richard Souza / AN
- As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos acontecem nesta terça-feira (3 de novembro de 2026).
- Estão em disputa as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 vagas no Senado e governos de 36 estados.
- Projeções divulgadas antes da votação apontam vantagem democrata na disputa pela Câmara e possibilidade de conquista da maioria no Senado.
- O resultado poderá alterar a capacidade de Donald Trump de aprovar medidas e conduzir sua agenda nos dois últimos anos de mandato.
- Na avaliação de William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a economia americana manteve crescimento, mas enfrenta inflação acima da meta e fragilidade fiscal.
Os Estados Unidos realizam nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, as eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, que renovam parte expressiva do Legislativo e incluem disputas para governos estaduais. O pleito ocorre na metade do mandato do presidente Donald Trump e é considerado um importante teste de avaliação popular de sua administração. Estão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e os governos de 36 estados. As projeções divulgadas na véspera indicavam vantagem dos democratas na disputa pela Câmara e uma possibilidade de conquista da maioria também no Senado.
Além de definir a composição do Congresso e de governos estaduais, a votação poderá influenciar diretamente a capacidade de Trump de conduzir sua agenda política e econômica nos dois últimos anos de mandato, entre 2027 e 2029.
As eleições de meio de mandato costumam funcionar como uma avaliação do desempenho do presidente em exercício. Nesse contexto, o resultado de 2026 ocorre em meio a debates sobre imigração, política comercial, inflação, custo de vida, mercado de trabalho e situação fiscal dos Estados Unidos.
Câmara e Senado concentram as principais disputas
A renovação da Câmara dos Representantes envolve todas as 435 cadeiras, cujos mandatos têm duração de dois anos. No Senado, 35 das 100 vagas estão em disputa, em eleições relacionadas aos mandatos de seis anos. Também serão escolhidos governadores em 36 estados.
De acordo com as projeções apresentadas antes da votação, os democratas aparecem como favoritos para manter o controle da Câmara dos Representantes. A disputa pelo Senado, por sua vez, é considerada mais equilibrada, embora pesquisas e indicadores de probabilidade divulgados na véspera tenham apontado uma vantagem crescente para a oposição.
Para conquistar a maioria no Senado, os democratas precisam ganhar quatro cadeiras atualmente ocupadas por republicanos. As projeções da plataforma de Logan Phillips e dados de mercados preditivos indicavam probabilidades entre 78% e 81% de vitória democrata na disputa pelo controle da Casa.
Esses números representam estimativas anteriores à votação, e não resultados eleitorais confirmados. A definição das maiorias dependerá da apuração dos votos em cada estado.
Como funciona a votação e quando saem os resultados
A votação antecipada já vinha sendo realizada nas últimas semanas, tanto pelo correio quanto presencialmente. Nesta terça-feira (3), os eleitores comparecem às urnas nos respectivos estados, com horários de encerramento diferentes em razão dos fusos horários americanos.
A apuração também ocorre de maneira descentralizada. Os Estados Unidos não possuem um órgão eleitoral nacional responsável por centralizar todo o processo de contagem, que é conduzido pelas autoridades de cada estado.
Os primeiros resultados começam a ser divulgados na noite desta terça-feira, conforme o fechamento das urnas. Entretanto, disputas muito apertadas e a contabilização de votos enviados pelo correio podem fazer com que a totalização demore dias.
Os novos parlamentares eleitos deverão assumir seus cargos no início de janeiro de 2027.
Resultado pode limitar a agenda de Donald Trump
O desempenho dos republicanos nas eleições terá consequências para a governabilidade de Trump durante a segunda metade de seu mandato. Caso os democratas conquistem o controle das duas Casas do Congresso, o presidente poderá enfrentar maior resistência para aprovar reformas, novos pacotes de redução de impostos e propostas orçamentárias.
Uma eventual maioria democrata no Senado também poderá dificultar a aprovação de indicações para cargos importantes do governo e para o Judiciário federal, incluindo nomeações para a Suprema Corte.
Na Câmara dos Representantes, a oposição poderá ampliar a fiscalização da administração Trump, com a abertura de comissões parlamentares de investigação, emissão de intimações e apurações sobre ações do governo.
Na política externa e comercial, o presidente mantém poderes executivos relevantes para conduzir medidas tarifárias e decretos internacionais. Ainda assim, um Congresso controlado pela oposição poderá restringir recursos destinados a determinadas iniciativas e alterar o ambiente político de Washington nos preparativos para a eleição presidencial de 2028.
Analista avalia resultados da política econômica de Trump
Além das disputas eleitorais, o desempenho econômico do governo está entre os temas que influenciam a avaliação da administração republicana. Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, Trump chegou ao governo com uma plataforma que apresentava diretrizes claras sobre economia, imigração e comércio exterior.
Na avaliação do especialista, não houve propriamente uma ruptura com as promessas eleitorais, uma vez que o presidente havia sinalizado as principais medidas que pretendia implementar.
Ao analisar a política comercial, Castro Alves destaca o chamado Liberation Day como um marco da estratégia tarifária. Segundo ele, as tarifas não reduziram de maneira consistente o déficit comercial de bens dos Estados Unidos, que permanecia em torno de US$ 130 bilhões em agosto de 2026.
O estrategista avalia que houve uma mudança na composição do comércio americano, com redução da participação da China e da União Europeia e redirecionamento de parte dos fluxos comerciais para outros parceiros, especialmente países asiáticos.
Ele também aponta que a corrida global por inteligência artificial ampliou a demanda por chips e equipamentos tecnológicos, influenciando a dinâmica comercial dos Estados Unidos.
As tarifas, segundo Castro Alves, geraram arrecadação relevante e ofereceram proteção a setores industriais específicos, como o de aço. Entretanto, o especialista considera que a política não resolveu os problemas estruturais do comércio americano. Na avaliação dele, as medidas tiveram maior efeito ao colocar as diferenças nas condições comerciais entre países no centro do debate econômico.
O estrategista também observa que a tentativa de estimular o reshoring, movimento de retorno de empresas, setores produtivos e investimentos aos Estados Unidos, apresentou avanços, embora não tenha ocorrido no ritmo inicialmente prometido.
Crescimento econômico e consumo sustentaram a atividade
Na avaliação de William Castro Alves, um dos aspectos positivos do período foi a manutenção do crescimento econômico americano, sustentado principalmente pelo consumo das famílias e pelos investimentos privados, especialmente em equipamentos e tecnologia.
O especialista destaca que havia receio de que a elevação das tarifas provocasse uma recessão, mas esse cenário não se concretizou. O consumo permaneceu resiliente e os investimentos privados contribuíram para sustentar a atividade econômica.
Os cortes de impostos também integram a avaliação positiva do estrategista. Segundo ele, Trump avançou em uma das principais promessas de campanha, e as medidas tributárias ajudaram a estimular a demanda e os investimentos em diferentes setores.
No mercado de trabalho, Castro Alves identifica uma mudança na dinâmica de criação de vagas após o endurecimento da política migratória. Com menor entrada de trabalhadores, a oferta de mão de obra diminuiu, contribuindo para um ritmo menor de criação de empregos.
O especialista também menciona a possibilidade de impactos da inteligência artificial sobre esse movimento, mas ressalta que ainda é cedo para atribuir à tecnologia uma parcela significativa da desaceleração. Apesar da redução na criação de postos de trabalho, a taxa de desemprego permaneceu relativamente estável, próxima de 4,2%.
Inflação continua como ponto de pressão para o governo
A inflação aparece entre os principais desafios econômicos apontados pelo estrategista da Avenue. Segundo os números apresentados por Castro Alves, o índice de preços ao consumidor (CPI) estava em 3,7%, enquanto o índice de despesas de consumo pessoal (PCE) também permanecia acima de 3%. Ambos estavam acima da meta de 2% do Federal Reserve.
O especialista atribui parte da pressão inflacionária às tarifas comerciais e aponta que, mais recentemente, o aumento dos preços de energia provocado pelo conflito com o Irã também passou a influenciar o cenário.
Para Castro Alves, o custo de vida tem peso importante na percepção dos eleitores. Mesmo quando os indicadores macroeconômicos apontam crescimento, a continuidade da alta dos preços afeta diretamente o orçamento das famílias e pode se tornar um fator de pressão política em eleições de meio de mandato.
Outro aspecto abordado pelo estrategista foi a mudança no comando do Federal Reserve. Kevin Warsh assumiu a liderança da instituição, elevou a taxa de juros e sinalizou disposição para apertar ainda mais a política monetária caso a inflação não recue.
Apesar das preocupações anteriores sobre uma possível influência política sobre o Banco Central americano, Castro Alves avalia que a instituição continuou funcionando de maneira independente.
Dívida pública e déficit fiscal são apontados como fragilidades
Na avaliação do estrategista, a situação fiscal representa um dos principais pontos de atenção da administração Trump.
A dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões, enquanto o déficit fiscal de 2026 se aproximava de US$ 2 trilhões. O pagamento de juros da dívida já chegava a aproximadamente US$ 1 trilhão.
Castro Alves considera que a combinação de cortes de impostos com um volume elevado de gastos públicos, especialmente na área militar, ampliou a pressão sobre as contas do governo e aumentou o custo do serviço da dívida.
O especialista ressalta que a redução de impostos pode estimular a atividade econômica, mas, quando não é acompanhada por uma diminuição correspondente dos gastos públicos, contribui para ampliar o déficit e a trajetória de endividamento.
Nesse sentido, ele considera que não houve avanços relevantes na questão fiscal durante o período analisado. Pelo contrário, o endividamento continuou crescendo, representando uma fragilidade para a sustentabilidade econômica americana no longo prazo.
Dólar e comércio internacional também passaram por mudanças
O dólar apresentou movimentos importantes desde a chegada de Trump ao governo. Segundo Castro Alves, a moeda estava em patamares elevados no início do mandato, influenciada, entre outros fatores, pelas expectativas de cortes de impostos e de uma economia americana mais dinâmica.
Posteriormente, o dólar perdeu força, em um movimento associado às mudanças nas expectativas econômicas e na percepção dos investidores. O estrategista observa que, embora algumas políticas tenham contribuído para o enfraquecimento da moeda, não é possível manter uma desvalorização apenas pela vontade do governo ou por declarações presidenciais.
Depois de um período de maior enfraquecimento em 2025, o dólar encontrou algum suporte e passou a apresentar trajetória relativamente mais estável, também sustentada pelos juros americanos ainda elevados e pelo papel da moeda como ativo de reserva global.
Na avaliação geral do especialista, a economia dos Estados Unidos manteve dinamismo, com crescimento, consumo resiliente e investimentos relevantes em tecnologia. Ao mesmo tempo, permanecem desafios relacionados à inflação, aos juros elevados e ao desequilíbrio fiscal.
Eleições podem redefinir o ambiente político dos próximos dois anos
O resultado das eleições de meio de mandato definirá a composição do Congresso americano a partir de janeiro de 2027 e poderá alterar as condições políticas para a segunda metade do governo Trump.
A disputa ocorre em um momento em que a economia apresenta crescimento, mas convive com inflação acima da meta do Federal Reserve, juros elevados e aumento da dívida pública.
Para William Castro Alves, o setor privado e o consumo das famílias continuam sustentando a atividade econômica, enquanto a fragilidade fiscal permanece como um problema relevante para o governo.
Com a votação desta terça-feira, os eleitores americanos também definirão o espaço político disponível para Trump implementar sua agenda nos dois últimos anos de mandato, em um cenário que poderá influenciar as articulações políticas em preparação para a eleição presidencial de 2028.
