Bandeira do Brasil | Foto: Richard Souza / AN
Os programas de governo de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) partem de diagnósticos diferentes sobre o papel do Estado, mas compartilham uma ambição: tornar o Brasil mais competitivo e ampliar sua presença internacional. A diferença está principalmente nos instrumentos escolhidos, e no grau de detalhamento sobre como transformar as propostas em políticas concretas.
Para empresas brasileiras e multinacionais que operam no país, a eleição de 2026 coloca sobre a mesa dois modelos distintos de ambiente de negócios e inserção internacional. O programa de Flávio Bolsonaro aposta em abertura comercial, redução de impostos, segurança jurídica, investimento privado, concessões e atração de capital estrangeiro. O de Lula prioriza neoindustrialização, investimento público e privado coordenado pelo Estado, conteúdo local, transição ecológica, fortalecimento tecnológico e uma política externa voltada ao multilateralismo e à diversificação de parceiros.
Os dois documentos também convergem em pontos importantes: defendem maior presença do Brasil nas cadeias globais de valor, expansão das exportações, aproveitamento econômico de minerais críticos, desenvolvimento tecnológico, infraestrutura e utilização das vantagens brasileiras em energia e recursos naturais. Mas divergem sobre a intensidade da atuação estatal e sobre a forma de relacionar política industrial e comércio exterior.
Negócios: Estado indutor ou Estado coordenador?
O programa de Flávio Bolsonaro apresenta uma orientação mais voltada à redução de barreiras à atividade empresarial. A proposta inclui desburocratização para quem empreende, revisão de normas infralegais, segurança jurídica, redução de impostos, reforma administrativa e maior participação privada em infraestrutura. O documento afirma que o Estado deve atuar como regulador e coordenador, e não como empresário, especialmente em setores como mineração.
Na infraestrutura, o plano propõe uso intensivo de PPPs e concessões, além de um fundo lastreado na securitização de ativos e imóveis da União. Prevê R$ 900 bilhões em investimentos em quatro anos em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias, além de corredores logísticos destinados a reduzir custos de transporte. O programa também vincula a expansão da infraestrutura à redução do custo logístico para o setor produtivo.
O documento avança relativamente mais no “como” em alguns desses pontos. Ele especifica instrumentos, PPPs, concessões, securitização, financiamento do BNDES, e chega a indicar valores de investimento e projetos prioritários. Também estabelece mecanismos para estabilidade regulatória em grandes projetos, com regras que poderiam permanecer estáveis por até 20 anos. No licenciamento ambiental, propõe prazos definidos e prevê concessão da licença caso o órgão público não decida dentro do prazo, quando o empreendedor tiver cumprido as exigências.
O programa de Lula segue outra arquitetura. A estratégia econômica combina investimento público e privado, política industrial, financiamento, compras governamentais, concessões, regulação e benefícios condicionados a conteúdo local e valor agregado nacional. A Nova Indústria Brasil é apresentada como eixo da neoindustrialização, com foco em inovação, inteligência artificial, minerais críticos, produtividade, soberania tecnológica, empregos qualificados e descarbonização.
O programa informa que, no ciclo anterior, a NIB disponibilizou R$ 860 bilhões em financiamentos por meio do Plano Mais Produção. Para o próximo mandato, prevê continuidade e ampliação desse modelo, combinando crédito público e privado, compras públicas, concessões, regulação e incentivos. O texto, portanto, descreve uma infraestrutura institucional para executar a política industrial, mas não apresenta, nesse trecho, um valor global equivalente ao dos R$ 900 bilhões propostos pelo PL para a infraestrutura nem um cronograma financeiro completo para todas as novas medidas.
O que isso representa para as empresas?
Nos dois programas, o empresário encontra instrumentos de apoio à expansão, mas de naturezas diferentes.
No PL, a ênfase está em reduzir o custo de fazer negócios e ampliar a previsibilidade, com menor tributação, abertura comercial, concessões e segurança jurídica.
No PT, a ênfase está em direcionar capital e política pública para setores considerados estratégicos, utilizando financiamento, compras governamentais, conteúdo local, inovação e política industrial.
Nenhum dos documentos, porém, apresenta uma matriz completa que permita calcular, empresa por empresa ou setor por setor, o impacto líquido dessas políticas sobre custos, carga tributária, financiamento ou margem operacional. Essa é uma lacuna relevante para decisões empresariais de longo prazo.
Tributação: reduzir a carga ou consolidar a reforma?
Aqui aparece uma das diferenças mais claras.
Flávio Bolsonaro propõe revisar a reforma tributária em curso, reduzir o IVA projetado, preservar a simplificação e assegurar a não cumulatividade. O programa também promete desoneração das exportações e dos investimentos e redução das exceções tributárias. A estratégia fiscal mais ampla inclui redução da dívida pública, superávits primários, controle das despesas discricionárias e limitação do crédito subsidiado com recursos do Tesouro.
A proposta, portanto, associa competitividade empresarial a menor carga tributária e disciplina fiscal. O mecanismo está indicado em linhas gerais: redução de despesas, revisão da reforma tributária e desonerações. Mas o programa não apresenta uma conta consolidada mostrando quanto custariam as reduções de impostos nem qual seria a composição detalhada das receitas e despesas durante a transição.
Lula, por sua vez, defende a continuidade da reforma tributária do consumo aprovada no atual ciclo. O programa destaca a substituição de cinco tributos por CBS e IBS, a redução da cumulatividade, a eliminação da guerra fiscal e mecanismos de cashback. A estratégia fiscal apresentada combina controle do crescimento das despesas, justiça tributária e redução de privilégios e distorções.
Para as empresas, a diferença está menos na intenção de simplificar, presente nos dois documentos, e mais na direção da política. O PL propõe revisar e reduzir a estrutura tributária em vigor; o PT pretende consolidar e aprofundar a reforma já aprovada.
Pequenas e médias empresas: internacionalização aparece nos dois programas
Os dois candidatos reconhecem que a inserção internacional não deve ficar restrita às grandes companhias.
Flávio Bolsonaro propõe apoiar a internacionalização de pequenas e médias empresas por meio do BNDES e da Apex-Brasil. A ideia aparece integrada ao programa de crédito para empreendedores e à redução de burocracia e tributos.
O programa de Lula também coloca micro, pequenas e médias empresas entre as prioridades. Prevê ampliar o acesso ao crédito por fundos garantidores, fundos de participação estruturados por bancos públicos em parceria com gestores privados e o Brasil Mais Produtivo, além de estimular inovação tecnológica e inserção exportadora.
A diferença novamente está no instrumento predominante: o PL associa internacionalização à abertura econômica e ao apoio de BNDES e Apex; o PT a conecta a financiamento, produtividade, inovação e política industrial.
Minerais críticos: uma rara convergência estratégica
Minerais críticos e terras raras aparecem nos dois programas como ativos relevantes para a posição internacional do Brasil.
Flávio Bolsonaro propõe agregar valor no país em vez de concentrar a atividade na exportação de minério bruto. O Estado seria regulador e coordenador, com marco regulatório estável, licenciamento ágil, atração de capital e tecnologia, incentivos de mercado, governança e transparência. O programa também prevê garantias de crédito e aceleração dos processos minerários.
Lula também propõe uma política específica para minerais críticos e terras raras, com mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, procurando inserir o Brasil nas cadeias globais de valor desses recursos. A diferença é que essa política está explicitamente integrada à estratégia de neoindustrialização e à política de comércio exterior.
Nos dois casos, portanto, o objetivo não é simplesmente aumentar a exportação de matéria-prima. O ponto de convergência é internalizar etapas produtivas de maior valor agregado.
Tecnologia, inteligência artificial e energia
Também há convergência na tentativa de transformar recursos brasileiros em vantagem competitiva internacional.
O programa de Flávio Bolsonaro combina energia limpa e barata, minerais críticos e desenvolvimento de inteligência artificial. Propõe estimular pesquisa, parques tecnológicos, incubadoras, startups e aproximação entre universidades e empresas, com o Estado atuando por compras públicas, GovTech e investimento em pesquisa.
O programa de Lula prevê o desenvolvimento de uma infraestrutura digital soberana, expansão de data centers e serviços de nuvem, inteligência artificial desenvolvida por empresas brasileiras e investimentos em empresas públicas e privadas, universidades e centros de pesquisa. Para data centers, estabelece a intenção de exigir eficiência energética, fontes renováveis progressivamente e contrapartidas de conteúdo local.
Na energia, a proposta do PL enfatiza redução de custos, expansão da infraestrutura de gás, exploração de gás não convencional, biocombustíveis e uso da matriz renovável para atrair data centers. O PT enfatiza a transição para uma economia de baixo carbono e a criação de polos industriais associados à energia renovável, especialmente no Nordeste.
Para empresas internacionais, os dois programas sinalizam oportunidades em energia, tecnologia e minerais, mas com condições diferentes: o PL privilegia atração de capital e menor custo de energia; o PT adiciona exigências de conteúdo local, sustentabilidade e integração às cadeias industriais brasileiras.
Política externa: pragmatismo comercial versus multilateralismo estratégico
É no campo externo que os contrastes políticos ficam mais explícitos.
O programa de Flávio Bolsonaro define uma diplomacia “profissional” e “pragmática”, orientada pelo interesse econômico brasileiro e sem escolha de parceiros por afinidade ideológica. O texto cita China, União Europeia, Estados Unidos e mercados asiáticos como interlocutores a serem tratados conforme os interesses do produtor e do trabalhador brasileiro.
A proposta estabelece ainda objetivos concretos: retomar o processo de adesão à OCDE, preparar uma abertura comercial para facilitar acesso a bens de capital, tecnologia e insumos importados, integrar o país às cadeias globais de valor, apoiar a internacionalização de pequenas e médias empresas e fortalecer multinacionais brasileiras. Também estabelece a meta de tornar o Brasil, até 2030, um dos principais destinos mundiais de investimentos em transição energética.
O programa de Lula também defende novos acordos comerciais e abertura de novos mercados, mas insere essa estratégia em uma política externa universalista e multilateral. O Mercosul é tratado como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul. O programa propõe aprofundar relações com África, Ásia, Oriente Médio e Europa, além de fortalecer BRICS, G20, cooperação Sul-Sul e instituições multilaterais.
O PT também propõe reforma da Organização Mundial do Comércio, defesa de tratamento diferenciado para países em desenvolvimento, maior articulação entre comércio, sustentabilidade e acesso a tecnologias verdes e reforma da arquitetura financeira internacional.
Assim, ambos defendem diversificação comercial e abertura de mercados, mas o PL enfatiza mais diretamente a competitividade e a atração de investimento, enquanto o PT associa comércio exterior a integração regional, multilateralismo, soberania tecnológica, sustentabilidade e reforma das instituições internacionais.
Onde os programas se encontram
Apesar da distância ideológica, há uma lista considerável de convergências:
- ampliar exportações e abrir mercados;
- aumentar a presença brasileira nas cadeias globais de valor;
- desenvolver minerais críticos e agregar valor no país;
- fortalecer tecnologia e inovação;
- utilizar energia limpa como vantagem competitiva;
- melhorar infraestrutura logística;
- apoiar pequenas e médias empresas;
- atrair ou mobilizar investimentos privados;
- aumentar a competitividade internacional;
- ampliar a participação brasileira em setores ligados à transição energética.
Essas convergências são importantes porque mostram que o debate não é simplesmente entre “mais” ou “menos” inserção internacional. Os dois programas defendem uma economia brasileira mais integrada ao exterior, mas divergem sobre quem deve conduzir essa integração, quais setores devem receber prioridade e quais condições devem acompanhar o investimento.
Onde estão as diferenças mais relevantes para os negócios
Para uma empresa que precisa decidir onde investir, produzir ou estabelecer sua próxima operação, quatro diferenças merecem atenção.
1. Papel do Estado.
O PL enfatiza Estado regulador, concessões, competição e capital privado. O PT atribui ao Estado uma função mais ativa na coordenação do investimento, financiamento, compras públicas e política industrial.
2. Política tributária.
O PL promete revisar e reduzir a carga da reforma tributária. O PT pretende consolidar a reforma aprovada e combinar sua implementação com justiça tributária.
3. Política industrial.
O PL privilegia ambiente regulatório, abertura, produtividade e atração de capital e tecnologia. O PT coloca a neoindustrialização no centro da estratégia, com financiamento direcionado, conteúdo local, compras públicas e incentivos.
4. Inserção internacional.
O PL apresenta uma diplomacia predominantemente pragmática e comercial. O PT propõe uma política externa universalista e multilateral, com maior peso para Mercosul, BRICS, G20, Sul Global e organismos multilaterais.
E o “como”? É aí que os documentos deixam perguntas em aberto
Os dois programas apresentam mecanismos de implementação, mas não com o mesmo grau de detalhamento em todas as áreas.
O plano de Flávio Bolsonaro é mais específico em alguns instrumentos: estabelece valores para infraestrutura, descreve modelos de financiamento, detalha mecanismos de estabilidade regulatória, aponta a retomada da OCDE, define o papel de BNDES e Apex-Brasil e descreve como pretende acelerar licenciamento e direitos minerários.
Ao mesmo tempo, não apresenta uma estimativa consolidada do impacto fiscal de todas as reduções tributárias, nem detalha, para cada setor, como seria financiada a combinação entre redução de impostos, investimentos públicos e redução da dívida.
O programa de Lula apresenta uma rede mais extensa de políticas e instituições já existentes, NIB, Novo PAC, fundos garantidores, FNDCT, Eco Invest Brasil, instrumentos de mercado de capitais, compras públicas e mecanismos de financiamento. Isso dá ao documento uma estrutura de continuidade e execução baseada em programas existentes.
Por outro lado, em diversas propostas para o próximo mandato, o documento não quantifica o volume total de recursos necessários nem estabelece cronogramas específicos para cada nova iniciativa. Também não detalha, em todos os casos, o impacto esperado das políticas de conteúdo local e de maior participação estatal sobre custos e competitividade de empresas que dependem de cadeias internacionais.
Essas lacunas não significam, por si só, que as propostas sejam inviáveis. Significam apenas que os documentos, por si mesmos, não permitem calcular integralmente seus custos, prazos e efeitos sobre cada segmento empresarial.
O que os programas não respondem
Para o setor privado, algumas perguntas permanecem abertas nos dois documentos.
Qual será o custo fiscal total de cada programa? Qual será a trajetória anual de investimentos públicos e privados? Quais setores receberão prioridade efetiva quando houver restrição de recursos? Como serão medidos os resultados das políticas industriais? Quais serão os critérios para concessão de incentivos? Em quanto tempo uma empresa poderá perceber redução de custos logísticos, tributários ou regulatórios?
Na política externa, os documentos também apresentam objetivos amplos, abertura de mercados, novos acordos, diversificação de parceiros e maior integração internacional, sem estabelecer, em todos os casos, uma lista completa de acordos prioritários, cronogramas de negociação e metas quantitativas de comércio ou investimento.
Para executivos, essas questões são menos abstratas do que parecem. Elas determinam planejamento de capital, localização de fábricas, contratação, cadeias de suprimentos, exposição cambial, acesso a financiamento e estratégia de internacionalização.
Dois caminhos, uma mesma disputa pela competitividade
Os dois programas partem de visões diferentes sobre como o Brasil deve crescer e se relacionar com o mundo.
Flávio Bolsonaro propõe uma combinação de disciplina fiscal, redução tributária, abertura comercial, segurança jurídica, investimento privado e atração de capital estrangeiro, mantendo o Estado em funções de regulação e coordenação.
Lula propõe neoindustrialização, investimento público e privado coordenado, financiamento direcionado, conteúdo local, transformação ecológica, soberania tecnológica e multilateralismo, procurando usar o Estado como instrumento de desenvolvimento produtivo.
Em comum, os dois enxergam oportunidades em infraestrutura, tecnologia, energia limpa, minerais críticos e exportações. A diferença está principalmente no desenho institucional e econômico escolhido para transformar essas oportunidades em crescimento.
Para o mundo empresarial, portanto, a questão central não é apenas qual programa promete mais crescimento, investimento ou comércio. É qual combinação de tributação, regulação, financiamento, política industrial, infraestrutura e relações internacionais produzirá o ambiente mais previsível para as decisões que precisam ser tomadas por empresas brasileiras e estrangeiras.
Os programas fornecem parte dessas respostas, e deixam outras para serem definidas durante a execução de cada governo.
Os brasileiros voltarão às urnas em 25 de outubro de 2026 para escolher entre esses dois candidatos quem governará o país pelos quatro anos seguintes. Para empresas, investidores e trabalhadores, a questão que permanece é direta: qual desses dois desenhos será capaz de transformar as vantagens brasileiras em competitividade internacional sem comprometer a previsibilidade necessária para investir?
